7 anos atrás
Há 7 anos eu chegava a Brasília. Nunca havia posto os pés nesta cidade. Nutria um desejo imenso de sair do Rio de Janeiro. Apesar de carioca, nunca suportei seu calor e sua balbúrdia. O Planalto Central, porém, nunca chegara sequer a ser cogitado como um destino possível. Eu nem lembrava que Brasília existia.
Não sabia o que esperar. A minha imagem mental de Brasília se restringia à Esplanada dos Ministérios, tal como mostrada pela Rede Globo nas tomadas externas das notícias de corrupção no Congresso. Imaginava uma terra árida, um clima desértico, tão deserto quanto a cidade nos fins de semana, quando todos voltavam para sua terra natal em busca de um pouco de civilização e os rolos de feno eram soprados pelo vento em ruas desoladas e empoeiradas. E quando a mudança se concretizou, os amigos tentavam me consolar: "Pelo menos lá se pode deixar o pacote de bolachas aberto sem que elas amoleçam". "Ao menos lá a roupa seca de um dia para o outro". "A passagem aérea está barata e você pode vir pro Rio todo o mês".
| Eu em 31/07/2006 |
Quando me perguntavam se eu gostava de Brasília eu respondia que achava que ninguém gostava verdadeiramente de Brasília. As pessoas se acostumavam com ela e, quando menos esperavam, não sabiam mais viver em outra cidade. No início foi assim. Dizia a mim mesmo que tinha vindo para dar certo. Me apegava às coisas boas da cidade e tentava ignorar as suas mazelas. Ainda não a considerava uma morada definitiva quando, para a minha surpresa, me vi batalhando para ficar aqui quando a decisão mais natural parecia ser voltar para casa.
Só que o Rio não era mais minha casa. Brasília era. Aprendi a fazer tesourinhas, embora deva confessar que de vez em quando me enrolo para chegar em algumas comerciais sem a ajuda do Waze. Aprendi a gostar da seca. Aprendi que Brasília não tem mar mas tem o céu. Não tem praia mas tem o Lago. Não tem calçadas mas... Bem... Brasília não tem calçadas.
Por vezes me decepcionei. Ao descobrir que não existe o Lote 14 na Ceilândia. Ao perceber que o plenário da Câmara é muito menor do que parece na televisão. Ao perceber que as pessoas que vêm para cá imaginam Brasília como uma etapa provisória em suas vidas gerando alta rotatividade nas turmas dos colégio e baixo estabelecimento de laços afetivos.
Trocando em miúdos, porém, Brasília me fez bem. Quando a poeira assentou, ainda nos meus primeiros meses, percebi que a vida financeira estava bem encaminhada. Faltava resolver a vida em si. Faltava largar o cigarro, a vida sedentária, a pressão alta e o colesterol. E aí Brasília me ensinou a correr. Aprendi que correr é simples. Aprendi que é recompensador. Aprendi que vicia tanto quanto nicotina. Aprendi que quem corre 5, logo quer correr 10. Aprendi que correr uma maratona é fácil quando se treina - e que o treino é mais desafiador do que a prova em si. Aprendi que uma maratona é um ótimo pretexto para conhecer outra cidade, outro país. Coloquei esses ensinamentos em prática quando meu casamento acabou e eu fui correr em Atenas para cicatrizar as feridas. Corri nas ruas de Milão, na chuva em Florença, em torno do Coliseu em Roma, margeando os canais, em Veneza.
Quando a corrida passou a ser pouco, Brasília me ensinou a pedalar. Conheci a neve atravessando a Cordilheira dos Andes numa bicicleta. Aprendi que não há modo melhor de se conhecer uma cidade do que em cima de uma bike e, assim, pedalei em Amsterdã, Hamburgo, Berlim, Lisboa, Praga, Viena, Milão. Aprendi que pedalar do Rio para Friburgo não é uma distância tão grande assim e que, se sair de manhãzinha, dá para chegar no início da tarde.
Brasília me ensinou. Me fortaleceu. Me apresentou pessoas. Me moldou. Não tenho dúvidas que, ao me olhar no espelho, enxergo uma pessoa melhor do que aquela que aqui chegou, 7 anos atrás.
| Eu em 01/08/2013 |
Nenhum comentário